Um sobrevivente da Covid, por Márcio Metzker

Soube por nossa presidente Alessandra Mello que a Covid mata um jornalista por dia no Brasil. Outros devem morrer também pelas más condições de trabalho, o arrocho salarial sobre a categoria e as ameaças que lamentavelmente se repetem sobre os repórteres de política por parte do presidente da República e seus capangas. Morrer de raiva, de frustração, de desânimo. Mas o que lhes trago agora é o relato de um sobrevivente.

Apesar de ter vivido quase um ano em severo isolamento, em 3 de fevereiro internei-me no Biocor com diagnóstico confirmado de Covid, juntamente com minha esposa Fran. Ao contrário dela, que foi atingida de maneira relativamente branda, eu cumpri um calvário medonho em 50 dias no CTI e mais 49 fora dele, lutando pela recuperação. Pelo histórico de problemas pulmonares que tinha, não acreditava que sobreviveria. Assim, antes de ir para o CTI, distribuí meu saldo bancário entre as filhas e a esposa e fiz algumas recomendações que minha mulher ouviu em prantos.

A dificuldade para respirar começou a ser enfrentada com cateter nasal. Depois passei para a máscara Venturi e em seguida para o Helmet, uma bolha de plástico enlouquecedora que afivelam na cabeça da gente para insuflar oxigênio sob pressão e não consegui suportar por mais de duas horas. Então fui sedado e intubado. Depois de 45 dias fui extubado e traqueostomizado, para usar um respirador chamado Trilogy. Durante o coma tive duas septicemias em sequência por bactérias de CTI, falência renal que me obrigou a fazer hemodiálises e uma queda brusca de pressão que me trataram com doses cavalares de noradrenalina.

Nem quero me lembrar dos constrangimentos, humilhações, restrições, banhos de leito gelados do CTI. Minha mulher, ciente de que doente tem que ter dono, forçou a barra e me visitava todos os dias, desafiando a proibição. Levava gravações de mensagens confortadoras e encorajadoras dos amigos e parentes, e rezava segurando minha mão. Estou convencido de que me salvei pela competência dos médicos, a dedicação da equipe de enfermagem e pelo apoio espiritual dos amigos, e especialmente pelo poder da fé que ela demonstrou.

Quando recobrei a consciência já no final de março, não conseguia mover um músculo do corpo. Só os olhos e os lábios. Estava todo atrofiado e dormente. Houve uma espécie de romaria do pessoal médico e técnico no meu quarto. Me olhavam emocionados porque me viram num dos leitos de morte do CTI C, onde colocam os pacientes gravíssimos e sem esperança. Os médicos me diziam que lutei muito para ficar vivo, mas não tive consciência disso. Meu pneumologista me apelidou de Highlander. Passei a ser considerado o exemplo mais grave de paciente de Covid que sobreviveu naquele hospital.

Para mim a luta começou foi nessa época, para recuperar alguns movimentos e tratar uma enorme úlcera de decúbito sobre o cócix. Desde então a cada dia obtenho um ganho. O mais importante foi quando meus rins voltaram a funcionar e tive alta da hemodiálise. A fonoaudióloga me convenceu a gastar R$ 870 para comprar uma válvula Pass-Muir e voltar a falar, o que foi ótimo. Fiquei tonto quando os fisioterapeutas me puseram sentado na cama pela primeira vez. Fiquei empolgado quando duas magricelas me puseram de pé, e adorei quando me levaram ao chuveiro cheio de fios, respirador, oxigênio e sondas para um banho de verdade. Aos poucos fui me livrando do respirador e do suporte de oxigênio, para surpresa dos médicos.

Quando me alforriaram do hospital, saí meio ressabiado, de cadeira de rodas, e lá na porta estavam minhas filhas, irmãos e alguns amigos fazendo grande algazarra. Perdi 18 quilos nessa internação. Contratei um enfermeiro e uma fisioterapeuta para me tratarem em casa. Ambos elogiam minha força de vontade para fazer os exercícios e seguir as recomendações. Obedeço as orientações da nutricionista do hospital para ingerir proteína e suplementos. Creio que este resto de ano estará perdido para qualquer outra atividade. Só saí de casa até hoje para ir tomar a vacina H1N1. No próximo mês vou tomar as duas de Covid.

O pior dessa maldita doença é que ao contraí-la você é vítima. No dia seguinte passa a ser uma ameaça de saúde pública. Seus entes queridos não podem chegar perto, e se você morrer poucos irão ao velório. Fico dividido entre pensar que fui azarado de adoecer poucos dias antes de ter o direito de tomar a vacina, mas também sortudo de ter sobrevivido e não engrossar a estatística de meio milhão de mortos.

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Um comentário

  1. Sobreviveu com a mesma acuidade mental e capacidade técnica de relatar os fatos. Parabéns pela recuperação. Parabéns pelo texto. De volta à vida. Isso deve ser muito bom, depois de tanto sufoco. Muitos ficaram pelo caminho. Um forte abraço, Marcio.

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