O secreto esconderijo das receitas, por Beth Fleury

Essa malinha fotografada acima ilustra um pouco do que era a malinha de couro à qual me refiro, sempre que conto pra alguém onde ficavam guardadas as receitas de família em nossa infância. Nessa malinha secreta, guardada em um dos móveis herdados por mamãe na proibida sala de visitas de nossa casa em Sete Lagoas, ficavam cadernos de receitas manuscritas por nossa própria mãe, pela vovó Ianka e nossas tias-avós. Também estavam lá cópias de receitas datilografadas pela mamãe em encadernação simples, improvisada, antiga. Isso foi de quando trabalhou no SAPS, um serviço de abastecimento criado por Getúlio Vargas, que funcionou em capitais do país nos anos 40. Vovô tinha sido o 1º secretário de estado do Trabalho de Minas (chamava-se interventor), nomeado pelo próprio presidente Getúlio no governo pós-Revolução de Trinta. E manteve sua influência em Minas na década seguinte. Como isso se passava em Belo Horizonte, algumas mocinhas amigas e colegas de mamãe, do Colégio Santa Maria, junto com ela foram “nomeadas” para cargos de datilógrafas desse novo órgão. E curtiram por ali um tempo, datilografando suas receitas e gastando os salários em vestidos, cinemas e sorvetes. Assim era a elite de BH e do Brasil naqueles anos 40.

Mas, em nossa malinha marrom, havia ainda uma espécie de caderno grande, com receitas manuscritas pelas tias polonesas de Curitiba, Tia Wanda e Tia Yadja, até com desenhos delas de como fazer defumador para carnes; além de receitas e temperos de linguiças feitos conforme os costumes da época, onde ensinavam o uso de um conservante chamado salitre. Eu perguntava e ouvia muitas histórias da Vovó Ianka e da mamãe sobre aquelas receitas (inclusive essa história do SAPS).

E, no fundo dessa malinha, embaixo de todos estes cadernos de receitas, havia uns dois ou três maços de cartas, ainda guardadas naqueles envelopes brancos de antigamente, compridos e com as beiradas cobertas de pequenos losangos verde e amarelo nas beiradas. Maços amarrados com fitas coloridas de cabelo, fininhas (acho que eram vermelhas). E, dentro de cada envelope destes, folhas de carta em papel de seda, cobertas em tinta azul pela caligrafia fina e tombada do papai.

Em um certo dia, mamãe me achou deitada no chão dessa vasta sala de visitas, ao lado da rádio-vitrola de pés finos, ouvindo a Rádio Cultura de Sete Lagoas. Debruçada sobre uma dessas cartas onde papai descrevia como era viver nas fazendas de seu pai (Francisco Alves Teixeira, o conhecido Chiquitão do Pacu, a quem todos os netos deveriam chamar de “Pai Chico”).

Naquela carta, o noivo de minha mãe dizia que os homens da fazenda, trabalhadores do sertão, poderiam ser comparados à descrição feita por Euclides da Cunha em Os Sertões: “O sertanejo é antes de tudo, um forte…” , anotou nosso pai. Encantada com aquilo tudo não ouvi os passos de minha mãe chegando sorrateira – o escritor, o homem declarando o amor à sua noiva, prevenindo-a das vicissitudes da vida no sertão… Ali deitada no chão de tacos de madeira da proibida sala de visitas, num devaneio só…

“Quem disse que você pode ler isto, Elizabeth?! Já pra fora! Essas são as cartas de noivado de seu pai pra mim. Não é coisa pra criança ler!”, dizia minha mãe, furiosa.

Nessa malinha de couro marrom, guardada na parte de baixo do Itager menor, “de rádica de imbuia” (explicava meu paciente pai), tinha também um caderno grande da Vovó, onde ela havia recortado e colado receitas impressas nas revistas Cigarra, O Cruzeiro, Machete e outras. Umas com propaganda antiga de Maizena e outros produtos que eram novidades na época. A gente achava engraçada a letrinha simples da vovó. E nossa mãe, meio constrangida, justificava alguns erros de português desse caderno, na caligrafia meio infantil da vovó. E nos lembrava que, na família dela em Curitiba, nossos bisavós falavam polonês e não português em casa. Aí a gente sempre chegava naquela parte da conversa de nunca poder se referir aos nossos bumbuns usando as mesmas palavras dos primos (proibida para nós). “Por isso é que nós falamos ‘puptzcia’ não é mãe?”, a gente perguntava num misto de orgulho e diversão. Porque daí a mamãe sempre respondia: “Isso mesmo, não pode falar aquela palavra feia”. Então ríamos em conjunto. E alguém dizia “a palavra é bunda”. E outra criança respondia: “Não pode falar, a mamãe já disse”. Risos gerais.

Naquela malinha, se a gente a encontrasse de novo.… se fosse de repente aberta, tenho quase certeza que dela escapariam sons desses risos e histórias que povoaram as casas onde moramos na infância…

 

Elizabeth Maria Fleury-Teixeira – socióloga, poeta, jornalista, pós-graduada em Ciência Política; mestre em Sociologia e doutoranda em Sociologia na Ufscar. Uma das criadoras do movimento QuemAmaNãoMata – que voltou à ação em 2018. Autora de alguns livros de poesia (publicados ou não), esteve por 15 anos na mídia local e nacional; ingressou em instituição pública de pesquisa em fins dos anos 80. Autora de verbetes e uma das orgs. do “Dicionário Feminino da Infâmia – acolhimento e diagnóstico de mulheres em situação de violência”, publicado em 2015 pela Editora Fiocruz.

 

[1/1/21]

 

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5 comentários

  1. Gilson Luna da Silva

    Momentos de calor emocional e humano. Não era um proibido castrador, mas, no lugar disso, um estímulo a busca e ao direito de transgredir. Conspiração velada para fazer crescer a consciência dessa necessidade inata de mergulhar em memórias.

  2. Delícia de crônica.

  3. Que delicia de crônica memorial, Beth! Adoraria ter conhecido a Vovó Ianka!

  4. Beth, as lembranças da infância são ótimas, principalmente quando envolvem uma malinha de receitas, repleta de segredos… Linda crônica.

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