Juiz determina inspeção na antiga sede do jornal Hoje em Dia

O juiz Marcos Vinícius Barroso, da 12ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte, determinou uma diligência na antiga sede do jornal Hoje em Dia – o “predinho” da delação da JBS – para avaliar a situação atual do imóvel. O oficial de justiça avaliador deverá relatar se no prédio há algum tipo de atividade econômica, se está locado ou fechado e se existem obras em andamento. A inspeção faz parte do esforço da Justiça para que o Hoje em Dia pague os direitos trabalhistas de 38 jornalistas dispensados há dois anos.

O oficial deverá verificar também se funciona algum estacionamento no local, quem é o dono ou arrendatário deste, a que público ele atende e estimativa de faturamento. A visita poderá ser feito em qualquer dia e horário, e o oficial poderá requisitar auxílio de força policial, arrombar o prédio e efetuar prisão de quem se opuser ao cumprimento da ordem judicial. Ao relato deverão ser juntadas fotografias.

O “predinho” do Hoje em Dia é um capítulo de uma história enrolada e repleta de escândalos que envolve o jornal, entre eles o calote nos 38 jornalistas – além outras dezenas de gráficos e empregados na administração, num total de mais de 100 trabalhadores. Os jornalistas foram demitidos nos dias 29 de fevereiro e 1º de março de 2016, sem receber o salário do mês nem as verbas rescisórias.

Na ação judicial para receber a dívida trabalhista, os jornalistas tentaram que o edifício sede do jornal se tornasse garantia da dívida trabalhista, mas descobriram que ele tinha sido vendido por R$ 18 milhões à J&F, controladora da JBS, em parcelas de R$ 1 milhão, pelos antigos donos do jornal, a família Carneiro. Tentaram embargar o pagamento das parcelas que faltavam, mas a família Carneiro alegou que o pagamento tinha sido antecipado e todo o dinheiro já tinha sido recebido.

A delação de Joesley Batista, em maio de 2017, esclareceu o que realmente se passou: ele comprou o edifício por valor superfaturado, a pedido do senador Aécio Neves, e o dinheiro se destinava ao senador mineiro. Na eleição presidencial de 2014, o Hoje em Dia, então propriedade do Grupo Bel de Comunicação, presidido por Flávio Jarjour Carneiro, apoiou descaradamente o candidato tucano.

O “predinho” do Hoje em Dia foi ocupado por jornalistas e movimentos sociais durante alguns dias em junho de 2017, para denunciar a situação dos demitidos.

Além de vender o “predinho” por valor superfaturado, o Grupo Bel vendeu também o próprio jornal ao empresário e político Ruy Muniz, ex-prefeito de Montes Claros, que dispensou e deu calote nos 38 jornalistas. Dono de uma rede de escolas, Soebras, Muniz é conhecido por dar calote em professores e em 2016 foi preso pela Polícia Federal acusado de desviar recursos públicos na cidade que administrava. Na véspera da sua prisão, sua mulher, a deputada federal Raquel Muniz, ao votar a favor do impeachment da presidenta Dilma, citou o marido como exemplo de administrador público.

Outras irregularidades trabalhistas foram cometidas pelo Hoje em Dia, antes de depois da demissão em massa de jornalistas em 2016. Cotado para candidato ao Senado nas eleições deste ano, Ruy Muniz responde, juntamente com o jornal, a 367 ações trabalhistas envolvendo jornalistas, gráficos e trabalhadores da administração, cujos valores são estimados em cerca de R$ 25 milhões.

A justiça do trabalho reconheceu os direitos dos jornalistas, determinou intervenção administrativa no Hoje em Dia, bloqueou os repasses do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para a Soebras e ordenou que sejam depositados numa conta destinada a pagar a dívida trabalhista, autorizando, se preciso, auxílio da Polícia Federal para cumprimento da ordem.

(Crédito da foto: Isis Medeiros.)

[6/3/18]

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