Muito mais do que um ‘predinho’

Por João Carlos Firpe Penna

Ah, ele não sabia. Com certeza, não sabia. Mas se soubesse, teria dobrado a língua antes de dizer. E a abertura do belo texto de ontem (quinta feira) do El País, de autoria do jornalista Breiller Pires, poderia não ser essa:

“Comprei um predinho por 17 milhões e esse dinheiro chegou às mãos dele.” Foi assim, em delação premiada à Procuradoria-Geral da República, que o empresário Joesley Batista, proprietário do grupo JBS, descreveu como teria comprado um imóvel superfaturado em Belo Horizonte para repassar propina ao senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG). O “predinho” em questão pertencia ao jornal Hoje em Dia, que demitiu vários funcionários no início do ano passado, mas ainda não pagou direitos trabalhistas a cerca de uma centena deles.”

Sim, o predinho em questão, por décadas, abrigou a sede de dois jornais mineiros. Não só o Hoje em Dia, mas, antes dele, o Diário do Comércio.

E Joesley, se sensibilidade e percepção histórica tivesse, poderia ter dito a frase de outras maneiras:

“Eu não comprei apenas um imóvel, mas um símbolo de parte do jornalismo mineiro…”

“Comprei um local histórico, de onde grandes acontecimentos do cenário político e econômico do Brasil foram noticiados…”

“Comprei um edifício onde foram redigidas milhares de manchetes que representaram mudanças nos rumos da história…”

Afinal, das redações ali instaladas, saíram notícias sobre a redemocratização do país; as conquistas sociais; a Constituinte Cidadã; as maracutaias do Sarney para comprar seus cinco anos de mandato; as fiscais do Plano Cruzado; o arroz com feijão de Maílson; a moratória do Bresser Pereira; as disputadas eleições de 1989; o único tiro na agulha do Collor; a civilidade do vice Itamar que assumiu sem golpe; o Plano Real e estabilidade monetária; o governo Lula e o resgate da dignidade das classes exploradas… entre tantas outras.

Ah, Joesley não sabia de nada disto. Com certeza, não.

Se soubesse, não teria se referido daquela maneira a um local onde milhares de reuniões de pauta foram realizadas e milhões de laudas foram redigidas, sempre visando oferecer ao leitor, por várias décadas, uma interpretação digna da realidade.

Onde centenas de jornalistas escreveram mais que notícias e reportagens.

Onde centenas de jornalistas escrevemos, na verdade, grande parte de nossas próprias histórias. E depositamos ali nossas emoções e nossa capacidade de luta por uma sociedade mais justa.

Ontem à noite eu voltei “à redação da padre Rolim”.

Refiz a mesma rota pela qual passei por quase uma década, como foca, repórter, pauteiro, colunista ou editor dos jornais que ali cravaram suas sedes.

Onde aprendi, na prática, os mais profundos valores do jornalismo.

Valores nunca monetários de uma cartilha na qual não cabem expressões “comprar manchete”, “mostrar só o que nos interessa”, “esconder a pauta ruim”, “pagar antecipadamente por centenas de páginas de anúncio”, “descobrir lá em Uberlândia um instituto de pesquisa que nos coloca na frente na corrida presidencial”, “estampar no horário eleitoral esse furo de reportagem”, “publicar entrevista exclusiva paga”, “entrar aos berros na sala do editor para mudar capa do jornal” etc etc.

Expressões definitivas, que fizeram um “edifício gigante” se transformar, para eles, da propina, em nada mais do que… “um predinho”.

Mas a ocupação de ontem demonstra que a história do jornalismo mineiro ainda está sendo contada.

E os verdadeiros protagonistas não são eles!

(Na foto, assembleia na antiga redação do Hoje em Dia, o “predinho”.)

[2/6/17]

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Um comentário

  1. angelina leite ribeiro garcia 31 328787

    li todos os dias o jornal citado. na epoca. felizes vocesx que viveram essa experiencia e dela se recordam e todos os que compartilharam. vamos esperar por mudanças consistentes.

    Brasil e brasileiros merecem!

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