O silêncio de Marão

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Por João Paulo

Nos últimos anos, Mário Sérgio era um homem muito calado. No entanto, todo mundo tinha uma boa história com ele. Parecia que seu silêncio era sempre destinado aos outros. Para quem se aproximasse de verdade estava concedido o privilégio de partilhar alguma memória ou trocar alguma impressão sobre a vida. Depois tudo se recompunha, ele voltava a se concentrar e trabalhar com extremo cuidado suas edições: a palavra exata, o melhor corte na imagem, o equilíbrio das informações. Como não podia editar a vida, caprichava nas páginas.

“Você não conheceu o Marão nos bons tempos”, todos diziam. E era mesmo um exercício e tanto imaginá-lo mais solto, alegre, convivente. Todos que o conheceram “nos bons tempos” o amavam. Não há maior mistério em um homem que o amor que se retrai e evita chegar à luz. Mário era habitado por sombras e nuances. Era enorme e delicado de alma.

Sabia tudo de música. Na verdade, sabia de muita coisa e tinha um gosto refinado para uso pessoal, um repertório de conhecimentos que lançava mão para observar com muita atenção e pouca exibição as coisas do mundo. À medida que se afastou da reportagem e passou a cuidar do acabamento de páginas de várias editorias, seu talento era se esconder nas escolhas certas. Vez ou outra, um título cheio de picardia e uma legenda matreira entregava seu senso de humor e astúcia, que muitos sequer suspeitavam.

Marão foi repórter de polícia e de cultura, as duas áreas do jornalismo mais marcadas pela emoção. Um sentimento, no entanto, que ele insistia em deixar do lado de dentro. Era muito contido com os colegas e extremamente atencioso com fontes, assessores, entrevistados, mensageiros e curiosos em geral. Às vezes parecia que era dois: um para o custoso uso diário e outro para estabelecer relações com o planeta. Seu rigoroso senso de dever fez dele um especialista em computadores, internet e ferramentas digitais. Não tinha fetiche com tecnologia, mas era movido pelo dever da informação.

Gostava de pescarias – ou dizia que gostava para ficar em paz quando perguntavam o que faria nas férias – talvez porque fosse algo que desse a ele o prazer de se concentrar no silêncio sem se sentir isolado. O futebol era outra de suas paixões contraditórias: se aproximava das pessoas para ficar menos visível. Desconfio que Mário Sérgio pensava em futebol na beira do rio e se entregava aos sonhos assistindo a um jogo do Atlético. O lugar certo para ele era o lado de dentro.

Escrever bem é uma obsessão de todo jornalista. Somos gente, mas gostaríamos de ser tratados como texto. Mário Sérgio fez o caminho inverso. Foi deixando a expressão pessoal de lado para dar trato ao trabalho de outros. Escrevia muito bem. Talvez até bem demais para o padrão do jornalismo mais rápido dos nossos dias. Um texto que não se escreve acaba por se revelar, como um palimpsesto, sob camadas de outras intenções perdidas. Mário não conseguiu esconder sua generosidade solitária. Viveu para melhorar os outros.

 

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3 comentários

  1. Obrigada pelas lindas palavras, João. Como sempre, nos representa e emociona. O Mário Sérgio foi tudo isso e muito mais, um enigma e um caso de amor.

  2. Mário Sérgio foi o primeiro jornalista da grande imprensa a valorizar meu trabalho. Grande texto, João Paulo. Que falta fazem em nossos cadernos de cultura. Estamos cada vez mais orfãos!
    Abraços, Thelmo Lins

  3. Conheci o Marão dos butecos. Animadão. Via sacras. Depois se fechou. Mas eu, enquanto estava no jornal, sempre fiz questão de bagunçar o coreto dele. Só pra ver ele resmungar. Saudades.

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