#8M: Mulheres jornalistas falam sobre dificuldades no exercício da profissão

Por Beatriz Flores (*)

A pesquisa feita pelo “Perfil dos Jornalistas Brasileiros (2021)” mostra que a categoria no Brasil é composta majoritariamente por mulheres (58%), mas apesar de serem maioria ainda sofrem muitas perseguições e ataques durante o exercício da profissão.

“Ora, se nós somos maioria na categoria profissional, então nós temos que ter ações pensadas para as mulheres da categoria. Nós temos que ter uma visão sindical voltada para as necessidades das mulheres que compõem essa maioria”, expressa Samira de Castro, membra da Comissão de Mulheres da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). A Comissão tem como objetivo fomentar o debate sobre as questões de gênero no movimento sindical dos jornalistas brasileiros e na mídia brasileira.

Para Castro, as mulheres jornalistas são muito mais afetadas na profissão do que os homens. Aquelas que optam por serem mães, tem muito mais obstáculos a enfrentarem no serviço do que os homens jornalistas que são pais. “Por tudo isso, e por várias questões, as mulheres jornalistas são mais alvos de assédios moral e sexual, que a gente precisa discutir mais a questão de gênero dentro do movimento sindical dos jornalistas, a gente precisa ter formulações que deem conta da realidade do trabalho dessa mulher jornalista conjugado com o fato dela ser mulher”, explica.

Racismo

“Foram vários os assédios moral e sexual e as manifestações de misoginia e racismo na minha vida profissional”, diz Eneida da Costa, segunda mulher a presidir o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG) e a primeira negra. Sobre os desafios enfrentados à frente da direção do Sindicato, ela revela que “além do cardápio básico de toda entidade sindical – negociação salarial, defesa da categoria, melhorias nas condições de trabalho – presidi o Sindicato em uma época de muita violência contra os jornalistas. Violência institucional, policial, patrimonial, pessoal. Contra a integridade física e contra a vida de colegas.”. Relata que percebia o desdém dos homens e das mulheres brancas nas Assembleias. E havia um desafio por ser mulher preta. “Sempre frequentei o Sindicato e nunca vi nenhum presidente ser desafiado como fui, pela categoria”. Eneida alega que foi pesado, mas chegou ao fim do mandato com ganhos salariais para toda a categoria e fez seu sucessor.

Para Tatiana Lagôa, editora adjunta e colunista do jornal O Tempo, as jornalistas estão inseridas no mesmo contexto social machista, preconceituoso e racista de várias profissões. “No jornalismo, a gente percebe de diferentes formas que algumas fontes tendem a desqualificar mulheres, é muito comum, principalmente na cobertura política, econômica, mulheres sofrerem questionamentos velados, a fonte responde no diminutivo, como se nós mulheres tivéssemos de ter um tratamento diferenciado”. Também afirma que dentro de algumas redações algumas funções ainda são tidas como “de homens”, como se eles tivessem mais capacidade de executá-las que as mulheres. Tatiana conta que nunca na vida de repórter foi tão atacada quando começou a falar sobre raça em uma coluna no jornal. “Eu sou jornalista de redação há mais de uma década, sempre escrevi, mas eu nunca fui tão atacada quanto depois que eu comecei a falar da negritude”, descreve Tatiana, que é uma mulher negra e sofre sempre um preconceito a mais pela questão da raça do que as jornalistas brancas.

Pressão estética

A jornalista e fotógrafa Vera Godoy, conta que iniciou sua carreira no Estado de Minas. O jornal queria modernizar, e percebeu que faltava mulher na fotografia. Declara que foi admitida mais para “aparentar justiça de gênero, mas atrás deste fato, era para enfeitar”, porém, isso não a impediu na profissão. Cobriu todo tipo de pauta, futebol, polícia, política. No entanto, não gostou de cobrir futebol, “fui a primeira mulher a cobrir no Mineirão, onde fui pisada no campo, para sucesso da plateia, que visava o juiz por ter achado que eu estava no lugar errado”. Apesar dessas dificuldades, Godoy diz que as mulheres devem estar em todos os lugares, elas são mais humanitárias, “quem carrega um filho na barriga, é capaz de fazer de tudo para construir um mundo melhor”.

Uma jornalista que preferiu não se identificar menciona que foi chamada para uma vaga de trabalho no jornalismo esportivo de uma TV e pediram fotos atuais. De início, ela não entendeu o motivo, mas logo depois foi informada por pessoas do lugar que não se enquadrou no padrão de beleza da emissora, mesmo tendo muita experiência. “Só quem viveu nesse meio sabe que unhas, maquiagem, cabelos e, acima de tudo, o físico precisam estar impecáveis para pleitear uma oportunidade nesse mercado. Eu, atualmente com corpo ‘pandêmico’, raízes brancas e cuidados com beleza em segundo plano, não seria nem de longe uma opção para TV”, refere. Ela evidencia que essa ideia está muito ultrapassada, e para causar uma maior identificação com os telespectadores, todos os corpos, cores de pele e tipo de cabelo deveriam ser bem-vindos.

Dinorah Maria do Carmo, primeira mulher a presidir o SJPMG conta que, por causa do gênero e por ser a primeira a a ocupar o cargo, teve muitas dificuldades na atividade profissional e quando estava presidindo a entidade, mas lutou em prol da categoria por melhores salários, conseguiu dar uma alavancada na instituição e abriu os caminhos para que outras mulheres comandassem a entidade.

Depois de Dinorah e Eneida, os jornalistas elegeram e reelegeram a atual presidenta, Alessandra Mello. “Sofri muito assédio sexual como repórter de política. Ficava muito incomodada, mas naquela época, no começo dos anos 2000, achava que fazia parte do combo jornalista, mulher e jovem”, comenta Alessandra. Hoje as mulheres , relata a presidenta, têm mais coragem para denunciar e não veem mais esse comportamento como natural. “Pelo contrário. São os avanços de anos de luta feminista. Ainda temos um longo caminho a trilhar, mas seguimos em marcha até que todas sejamos livres do machismo, da violência, da desigualdade e do racismo”, afirma.

(*) estagiária sob supervisão de Alessandra Mello

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