O ódio que nos consome, por Márcia Lage 

Amigo meu, militante nas redes sociais, tem ódio do Bolsonaro e de todos que nele votaram. Ódio mesmo, de sangue nos olhos e veias inflamadas. Já brigou com toda a família, que apoiou o energúmeno, e com todos os amigos e amigos de seus amigos no Face Book, por divulgarem coisas que possam significar um alinhamento ao governo. Ainda que a pessoa esteja apenas brincando ou defendendo ideias que fogem ao discurso construído.

Como todo esquerdista, politizou completamente a pandemia e se transformou num vigilante da rua, taxando de direitista todo mundo que não segue a cartilha da OMS ou não está disposto a aguardar em casa o advento da salvação da humanidade pela descoberta da vacina. Dia destes, não satisfeito de odiar quem ele conhece, teve um chilique de ódio contra o meu cunhado, que ele mal avistou um dia, porque comentei que, na minha família, ele é o único que votou no Bolsonaro e que, apesar de ser médico, apoia o ponto de vista do presidente sobre o enfrentamento ao coronavírus.

Aos gritos de “quem vota em Bolsonaro é mau-caráter e ponto” ele espumou rancor, principalmente porque é homossexual e se acha pessoalmente ameaçado pelas ideias homofóbicas do atual governo “e de todos que o apoiam”. O meu cunhado não é machista nem homofóbico, tem um filho gay a quem aceita e ama sem censura alguma, não sonega impostos, vive do que ganha com o seu trabalho em hospitais públicos, é bom filho, bom marido, um excelente pai, adora minha mãe e tem uma relação carinhosa, generosa e amiga com todos os seus cunhados.

Ou seja: não é mau-caráter, apenas não se alinha com o pensamento da esquerda. Temos ótimas e civilizadas conversas, mas não tento convencê-lo a votar no PT, ou no PSol, ou no PCdoB. É um homem de classe remediada, nascido e criado no Sion. Serviu ao Exército, foi médico da Aeronáutica, podia ter seguido a carreira militar. Não o fez, porque também não se alinha com a caserna. Mas sua origem moldou seu pensamento político. E também a Faculdade e Conselho de Medicina de Minas Gerais.

Todos nós que passamos pelas Universidades Públicas sabemos da tendência das Ciências Humanas para o esquerdismo e das Ciências Exatas para o direitismo ou o centrismo, embora, obviamente, haja exceções. Na época das Diretas Já, a maioria dos sindicatos brasileiros era de esquerda. Inclusive os dos médicos, dos engenheiros, dos bancários e dos servidores públicos. A Ordem dos Advogados do Brasil foi uma força poderosa na luta pela retomada da democracia.

E ela veio, está aí, engatinhando na merda. Mas está. Vai levantar e andar, cair, levantar de novo, faz parte do seu amadurecimento. Por causa dela Bolsonaro foi eleito com 57 milhões, 796 mil e 986 votos. Deu mal para nós, da esquerda? Muito mal. O homem, realmente, é uma ameaça a todas as conquistas que o Brasil obteve desde a Constituição de 1988. Já devia ter sofrido um impeachment, mas qual país resiste a um impeachment atrás de outro? E quais as forças político/econômicas que derrubam um Collor e uma Dilma mas não derrubam um Bolsonaro?

O ódio ao Bolsonaro é muito maior que o ódio aos outros dois, tanto maior quanto grande é nossa frustração por não termos sabido permanecer no governo. E isso seria democrático? A alternância do poder é um dos pilares da democracia. Se um partido ou um presidente demora demais no cargo vira Ditadura. Ditaduras, de esquerda ou de direita, são indefensáveis, porque se impõem pela supressão das liberdades. Por isso defendo a Democracia acima de tudo. Se o povo errou, que corrija depois, como os norte-americanos fizeram agora.

Não vou odiar quem votou no Bolsonaro. Acho que estão equivocados, mas defendo o direito que eles têm de pensar diferente de mim. Ódio é sentimento que não deve ser cultivado. É o oposto da paz. Paz não é tudo pelo qual clamamos, desde sempre? Paz e amor? Então, porque nos igualar a eles com o mesmo rancor? Temos que ser democratas se queremos a democracia. Há muita ignorância na política brasileira e todo esse ódio é construído e alimentado para criar desinformação, desunir, apartar, enfim, dividir para governar.

Tanto é chata uma conversa rude com um bolsomínio ignorante quanto com um esquerdista rancoroso. O momento atual é uma grande lição de paciência para a humanidade. Se entre nós não houver delicadeza e compreensão, matar-nos-emos a cada contrariedade. A cada eleição. Até assassinarmos nossa própria humanidade, nossa liberdade, nossa frágil democracia.

Por tudo isso, não vou romper com meu cunhado. Nem com qualquer Bolsomínio do meu convívio, pois eles eram meus amigos antes, por outras virtudes que aprovo. Respeito a má escolha deles e evito criar polêmicas à toa. Já vivi bastante para ver comunista virar fascista e o contrário. O tempo nos mostra quem é quem, poupemos nosso fígado de maus humores. Intolerância não vai contribuir para o aperfeiçoamento da nossa política, essa sim, um trapo velho e imundo, que precisa urgentemente ser trocado. Mas com diálogo e diplomacia, não na porrada.

 

[18/12/20]

 

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3 comentários

  1. Pregam tanto o amor e grande parte semeia o ódio. Você citou duas coisas em falta neste mundo: delicadeza e compreensão. É o mundo de hoje. Parabéns pela ótima análise do mundo de hoje, espelhado no Brasil.

  2. Parabéns pela crônica, conterrânea! Quem tem a infelicidade de conhecer os camarins da disputa pelo poder, seja de esquerda ou direita, desanima com a podridão, difícil acertar… é tanta barganha – eleitores também!

  3. Como é bom identificar e ver publicada a sensatez!
    Gostaria que todo brasileiro, de um lado político ou de outro, lesse e refletisse sobre o que estamos fazendo com o Brasil.
    Que retornem nossas possibilidades de conversar civilizadamente, apesar dos pensamentos diferentes.
    Parabéns, Marcinha!

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