O menino e a lua, por Carlos Herculano Lopes

Ainda não havia escurecido totalmente. Naquela praça, como acontece todos os dias, algumas pessoas caminhavam. Umas mais depressa, com fisionomias sérias; outras devagar, como se fizessem um passeio ou simplesmente deixassem o tempo passar. Três ou quatro meninos andavam de bicicleta, enquanto pombos, rolinhas e juritis-verdadeiras caçavam o de-comer entre as árvores, em meio às quais as senhoras passavam em direção à igreja. Não davam atenção à viatura policial, que, bem devagar, fazia a ronda, com soldados de olho no grupo de adolescentes que parecia fumar maconha.

Indiferente a tudo isso, como se aquele momento só a eles pertencesse, uma mulher muito nova – talvez mãe pela primeira vez – passeava com o filho, empurrando-o no carrinho amarelo. O menino, bem branquinho, devia ter uns três anos ou até menos, parecia se divertir. Deram duas voltas ao redor da praça, quando, de repente, olhando para os lados da Serra do Curral, a moça deparou com a lua imensa, que, com seu brilho, parecia querer abraçar o mundo. O vento frio, desses que só costumam aparecer no inverno, soprava com insistência, balançando as folhas e refrescando os corpos de duas garotas lindas, com shorts curtíssimos, que passaram correndo.

A mulher, com os olhos voltados para a lua – naquele momento avançando céu acima, sem nenhum impedimento de nuvem ou início de estrelas -, parou o carrinho, virou-se para o filho e disse, como se estivesse contando um segredo: “Veja, meu amor, veja lá em cima. Que maravilha!”. Em seguida, assustada, virou-se para trás, como se temesse que alguém pudesse ouvi-la. Mas, àquela altura, o menino, como que enfeitiçado, já se encantava com a lua e conversava com ela.

A mulher de cabelos pretos presenciou a cena e sorriu. Um homem circunspecto, que por ali costuma caminhar com calça de linho e camisa social abotoada até o pescoço, também parou, disse alguma coisa e seguiu. Já um morador de rua, que tem naquela praça o seu lar, falou com certo desdém: ” Não perco tempo com essas coisas, porque na minha terra, lá na Serra do Salitre, a natureza é muito mais bonita do que tudo aqui. Sem comparação”. E foi embora, com sua longa cabeleira desgrenhada, um sorriso sem dentes e um saco sujo nas costas.

Nada daquilo parecia desviar a atenção da criança. Com os dedinhos para cima – e indiferente aos apelos da mãe, chamando-o para ir embora – ele tinha só olhos para a lua, com a qual prosseguia o seu diálogo, enquanto esta, ainda mais bonita, continuava seu passeio no céu.

 

Carlos Herculano Lopes é escritor e jornalista, autor, entre outros, dos livros Coisa do bicho, O vestido, O sol nas paredes e Sombras de julho.

 

[20/11/20]

 

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