Aposentado conserta máquinas de escrever há quase 60 anos

Por Maria Luísa Barsanelli

Joaquim de Jesus Fernandes conserta máquinas de escrever desde 1956. Mesmo assim, confessa não saber usá-las muito bem.

“Quando eu tinha 16 anos, tentei fazer um curso de datilografia. Só que, em vez de escrever, eu desmontava as máquinas para arrumar uns probleminhas que achava”, conta. “Então me mandaram embora dali.”

Seu Joaquim deixou sua Portugal natal em 1956. Chegou a São Paulo com 13 anos, completos na viagem de navio. Assim que fincou os pés por aqui, o gosto pela mecânica o levou a trabalhar na Underwood, representante da empresa americana de máquinas de escrever na rua Direita, na região central.

Lá, começou lavando os aparelhos e logo aprendeu a consertá-los.

Em bancos, foi técnico de antigas máquinas mecânicas (como as autenticadoras Burroughs) e, há cerca de 30 anos, fundou a oficina JJF Máquinas de Escrever, no número 122 da rua do Carmo, no centro. Ali chefiava uma equipe de quase dez funcionários. “A gente consertava cerca de 20 máquinas Olivetti Linea por semana”, relembra.

Hoje, aos 71 anos e aposentado, trabalha sozinho. Deixou a loja, fechada em 2012, e transferiu a oficina para o quintal de sua casa, em Itaquaquecetuba, cidade da Grande SP que fica a 36 km da capital, onde mora com a mulher há mais de três décadas.

Vai à casa dos clientes fazer o orçamento e buscar os aparelhos. Cansou-se de andar de carro por São Paulo e prefere pegar o trem de “Itaquá”, como carinhosamente chama seu domicílio, e levar as máquinas, cuidadosamente embrulhadas, em um carrinho de carga. Às vezes conta com a ajuda do vizinho –o “japonês”– para carregar as peças.

Seu Joaquim faz todos os reparos sozinhos, fora a cromagem e a pintura, trabalhos que terceiriza. As máquinas elétricas foram deixadas de lado: “Só mexo com as minhas velharias”, afirma. “Mesmo porque hoje isso dá mais dinheiro” –reparos simples custam em torno de R$ 200. Já os mais trabalhosos podem chegar a R$ 3.000.

Dos cerca de 20 aparelhos que aguardam conserto em sua oficina, há desde modelos Olivetti Linea 98, fabricados nos anos 1970 pela marca italiana, até uma caixa registradora de ferro fundido do fim do século 19, de botões tão variados como o de “venda fiada”. Quando abriu a caixa, ele descobriu 6.100 cruzados e 200.415 cruzeiros em espécie.

Em seu smartphone, seu Joaquim gosta de registrar o antes e o depois das restaurações, imagens que dividem espaço com as fotos de Otávio, seu netinho de oito meses.

“Hoje ainda tem muita gente que procura [o reparo de máquinas de escrever]: colecionadores, empresas ou quem tinha [os aparelhos] na família”, relata. “Mas quase não tem mais gente fazendo o conserto. Os equipamentos vão continuar existindo, mas quem vai consertar é só curioso.”

JJF Máquinas de Escrever – www.consertomaquinaescrever.com.br. Tel. (11) 3101-4421 e (11) 98063-1422 ou e-mail contato@consertomaquinaescrever.com.br.

 

(Publicado pela Folha de S. Paulo. Crédito da foto: Maria Luísa Barsanelli.] [10/11/20]

 

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