Dia virá – memórias de um futuro, por Beth Fleury

“Virá que eu vi / O axé do afoxé / Filhos de Gandhi / Virá” (Caetano Veloso)

Tarde da noite, confiro mensagens pra relaxar, depois de uma rotina hard que já dura quase quatro anos. Vã tentativa. Faleceu uma conhecida de algumas do grupo. Não me recordo quem é. Mensagem de Dinorah do Carmo tenta ajudar: “Beth, ela foi colega de turma da Maria Elvira e Lena Brandão. Se você também foi dessa turma, então foi colega dela! Era muito afável, gentil, mas firme, sabia o que queria”. Assim a pedra foi jogada no rio das memórias onde às vezes mergulhamos. Madrugada afora e fui atada ao fio das lembranças…

Realmente, amigas, eu não morava mais em Minas desde janeiro de 1982. Então me esqueci de muita gente menos próxima… Mas, sabendo que ela foi colega de Ma. Elvira na Comunicação da Fafich, isso me ajuda a recordar: as duas foram minhas colegas naquela turma. E, sim, me lembro, genericamente, de um grupo de garotas, eram colegas muito próximas da futura deputada. Respondi.

Essa turma espelhava bem o que se passava nas universidades brasileiras naquele momento (1973 a 1978, meu período por lá). Tinha esse grupinho de garotas, e também um capitão do exército já meio calvo (relaxou muito num papo de intervalo de sala de aula e um dia contou que era essa a sua origem). Também tinha o coleguinha bonzinho e loiro do interior, tipo o Alvinho da revista Luluzinha (criou e dirige um jornal de lazer), e a Lúcia Scoralick (escreve-se assim?) + um colega loiro mais velho, cabelo basto estilo italiano, que fazia plantões a noite toda na TV Globo e trabalhava de dia – tinha olheiras fundas. E + Neander, Beth Fleury e Silvéria, que reabriram o Centro Acadêmico da Comunicação.

Por isso fomos “adotados” pela gestão da Cecília Magalhães e, em seguida, a do Jesus Santiago da Psicologia (irmão do Tilden) no Diretório Acadêmico ou D.A. da Fafich (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Federal, ainda na sede antiga da rua Carangola, em BH). Ali se reuniam, dia sim, no outro também, Lívia Vieira, Ana Rita, Aloísio (eram da Psicologia); Jorge Pimenta, Roseana Nicolau, Juarez Guimarães, Marcelo, Silvana Cozzer (eram das Ciências Sociais). E ainda o pessoal da História: Bernardo da Mata Machado, Heloísa Starling, Regina Helena, Cecília Magalhães Gomes (filha do reconhecido físico mineiro Chiquinho Magalhães Gomes, da energia nuclear) e Lili da Letras.

Essa Cecília, grande liderança política e 1ª mulher presidente do D.A. da Fafich (foi sucedida pelo Jesus), era muito atuante nos anos de chumbo. Alta, magra, aquelas garotas de cabelo castanho escuro, muito liso e com franja, sardas. Voz de líder, bem impostada, discreta e corajosa, com cílios muito negros, um olhar trágico de quem conhecia as atrocidades do regime (político). Sempre vinha conversar comigo naqueles sábados culturais de manhã, os sábados incríveis da Fafich da rua Carangola. E me sugeriu ler “A História da Riqueza do Homem”. Como esquecê-la?

Havia ainda os papos do “murinho”, onde em 1974 Lucinha Afonso me convidou pra criarmos a Revista Silêncio, de literatura e cultura, contra a censura (rima involuntária e sem solução). Criamos, é claro! Um ano depois, 1975, ali mesmo no “murinho”, Mirian Chrystus se sentaria pra me falar do Ano Internacional da Mulher, organizado pela ONU, e fazer o convite: “O que você acha da gente criar um grupo de estudos sobre a mulher? A gente faz as reuniões lá em casa. Vamos?” Criamos esse grupo, e também o jornal De Fato. Vocês sabem o resto da história. Enfim… é isso aí.

Então, 23 anos depois de sair de Minas, retorno a Belo Horizonte em 2005. Passado um tempo, num encontro na Casa do Jornalista, por volta de 2012, ou 2013, espaço lotado de velhos ex-companheiros dessas memórias, Betinho Duarte contava a experiência do projeto de renomear viadutos, ruas e praças da cidade. Devo ter passado, lamentavelmente sem reconhecer, ao lado de Cecília Magalhães Gomes – aquela liderança do movimento estudantil do curso de História.

Soube, dia seguinte, que ela também havia estado na reunião. Foi aí que me lembrei de ter me sentado, durante as discussões da noite anterior, naquele sofá azul e lindo, já gasto pelo tempo, no salão de nosso Sindicado. Em dado momento, percorri os olhos pela sala com aquele desalento de quem chegou à meia-idade longe dos antigos colegas e não consegue reconhecer quase ninguém. Vi ao longe uma mulher em pé, postada ao lado da grande porta entalhada na entrada – os mesmos olhos profundos, a mesma altivez de uma dor sempre guardada. Aquela senhora me pareceu tão familiar! Nossos olhos se cruzaram e vi um lampejo no olhar dela. Mas, de volta a Minas, já me equivoquei tantas vezes ao perguntar (“na rua, na chuva, na fazenda”) a pessoas estranhas: “Por acaso você era da mesma época que eu na Fafich?” Daí, desisti na hora. Era ela. Na mesma semana ou na seguinte, recebo a notícia de sua morte: saiu de casa numa manhã qualquer, passou perto do D.A. da Medicina, entrou no prédio da própria Faculdade de Medicina da UFMG. Subiu de elevador até o último andar e de lá saltou dessa vida. Cecília, Presente!🌸🌺🌹

Parte II –

Mandei esse texto para o Marílio Malaguth ver se conseguia me tirar algumas dúvidas – médico e ex-secretário municipal de saúde na PBH gestão Patrus. Trajetória que descrevo conforme entendi numa conversa que eu e ele tivemos, 40 anos depois, no Café com Letras do CCBB ano passado. Malaguth também foi nosso colega de militância no movimento estudantil do período. Naqueles distantes anos 70, cheguei a encontrá-lo várias vezes nas reuniões gerais que rolavam no D.A. da Medicina. Tínhamos um bom diálogo e gostava de discutir com ele fatos políticos, história, teoria política e sonhos para o Brasil daquela época (entre 1974 e 1977). Logo hoje de tarde, Malaguth me respondeu, corrigindo um erro do texto. Lembrou-me que não havia prédio do D.A. e sim a vasta construção de um andar apenas, onde guardamos tantas memórias – ao lado do prédio da Faculdade de Medicina, ali na av. Alfredo Balena. Ele também sabia da morte trágica de Cecília Magalhães Gomes. Foi assim que acertei os dados dessa crônica, colocando dentro da Faculdade de Medicina o tal elevador onde Cecília subiu naquela manhã em que deu adeus à vida. Beijos querida 🌺🌸🌹

 

(*) Elizabeth Maria Fleury-Teixeira – socióloga, poeta, jornalista, pós-graduada em Ciência Política; mestre em Sociologia e doutoranda em Sociologia na Ufscar. Uma das criadoras do movimento QuemAmaNãoMata – que voltou à ação em 2018. Autora de alguns livros de poesia (publicados ou não), esteve por 15 anos na mídia local e nacional; ingressou em instituição pública de pesquisa em fins dos anos 80. Autora de verbetes e uma das orgs. do “Dicionário Feminino da Infâmia – acolhimento e diagnóstico de mulheres em situação de violência”, publicado em 2015 pela Editora Fiocruz.

 

[30/10/20]

 

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5 comentários

  1. Dinorah+Maria+do+Carmo

    Oi, Beth, eu não lhe disse que essas mensagens – memóriaspostadas na nossa página QANM dariam uma bela crônica? .Parabéns, gostei muito! ABRAÇO.

  2. Bom, Beth, eu tive o privilégio de ser o primeiro a ler. Acho histórias desse nosso passado, da cidade, ótimos e importntes. Têm de ser contados. Parabéns.

    • Elizabeth Maria Fleury Teixeira

      Verdade Ivan. Fico devendo a você pelo incentivo de escrever e publicar nessa bela coluna “Prá Não Dizer que não Falei de Crônicas”. Nessa altura da vida, recordar as décadas que deixamos para trás no tempo (e ficaram marcadas em corações e mentes, encarnadas mesmo em nossos corpos) é uma forma de reflexão muito especial.

      Grande abraço da Beth Fleury

  3. Querida Bete,
    no dia em que tentei ligar prá você sem te achar, me encontras com esta crónica, de tão distante geograficamente, para intimamente perto. Em um instante de leitura, o mundo se aproximou, a história vivida e contada servindo de ponte. Saudades de vocês, da Fafich, de Belô, das mulheres, das amizades.
    Katharina Gallauer, Suiçal

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