Crimes de homofobia contra jornalista e coletivo Marias de Minas continuam sem apuração quase um mês depois

A Polícia Civil ainda não tomou providências para apurar as ameaças contra jornalista o Guilherme Piu e o coletivo Marias de Minas, ocorridas no dia 20 de maio passado, durante live que discutiu a situação do Cruzeiro Esporte Clube. Nem mesmo o Boletim de Ocorrência (B.O.) foi registrado. O jornalista foi ameaçado de morte.

O B.O. é necessário para dar início às investigações dos crimes. O jornalista e o presidente do coletivo, Yuri Senna, acompanhados do advogado Henrique Nery, estiveram em várias delegacias tentando registrar a ocorrência, mas não conseguiram. A delegacia de crimes cibernéticos mandou-os procurar a delegacia de crimes de intolerância, que por sua vez alegou que as ameaças seriam um crime comum, que deveria ser registrado na delegacia mais próxima do endereço de cada um deles.

Embora tenham feito o pedido de ocorrência formalmente na delegacia de crimes de intolerância (Avenida Barbacena, 288, Barro Preto) e recebido a promessa de que seriam contatados no prazo máximo de três dias, para registro do B.O., por telefone, procedimento adotado durante a pandemia, o contato ainda não foi feito.

“Não sei o que está acontecendo”, disse o advogado. “Nenhuma delegacia queria fazer a ocorrência. Deram prazo de 72 horas, mas ainda não fizeram contato nem deram solução. E não atendem nossos telefonemas. Enquanto não há registro, não há investigação do crime.”

Os ataques homofóbicos aconteceram durante live no Instragram, na qual o coletivo Marias de Minas discutia a situação do Cruzeiro, que no dia seguinte elegeria sua nova diretoria. Guilherme Piu, jornalista que cobre o clube para o jornal Hoje em Dia, foi convidado a participar. Assim que a transmissão começou, os ataques começaram também. “Ce (sic) vai morrer”, dizia uma ameaça ao jornalista.

Democratização das arquibancadas

Marias de Minas é um coletivo de torcedores LGBTQI+ do Cruzeiro que luta pela democratização das arquibancadas. Criado há pouco mais de um ano, o coletivo conta com dezenas de integrantes cadastrados e mais de 1.600 seguidores, inclusive coletivos LGBTQI+ de 13 clubes brasileiros e da seleção brasileira de futebol, a Canarinhos Arco-Íris.

Seu nome é uma resposta orgulhosa à denominação que torcedores do Atlético dão aos cruzeirenses. “É uma forma de combater o caráter homofóbico e misógino que o nome carrega”, explicou Yuri. “Maria é nome de inúmeras mulheres que fizeram história, inclusive a Maria Salomé, torcedora-símbolo do Cruzeiro.”

Desde sua criação, o coletivo vem recebendo várias ameaças, mas nenhuma delas com tanta gravidade. “Vamos buscar todos os recursos para que os criminosos sejam identificados e se faça justiça”, disse Yuri.

O jornalista e o coletivo receberam muitas manifestações de solidariedade de jornalistas, torcedores, coletivos de torcedores LGBTQI+ e movimentos sociais, além do SJPMG. A diretoria do Cruzeiro também se solidarizou via rede social.

(Na foto acima, o jornalista Guilherme Piu, o advogado Henrique Nery e integrantes do coletivo Marias de Minas, no dia em que tentaram registrar a ocorrência policial. Crédito da foto: Alessandra Mello. Abaixo, reprodução de ameaças feitas em rede social.)

[17/6/20]

 

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