As arquibancadas das mulheres

Encontro estadual reúne torcedoras dos principais times mineiros e desconstrói a misoginia no futebol.

Por Petra Fantini, O Beltrano.

Descobri outro dia que uma pessoa muito querida questionou meu recente gosto por futebol, devido à minha empolgação com a Copa. E é verdade que até 2016 minha única identificação com o esporte era me declarar atleticana. Isso eu sempre fui. Mas conversar sobre, assistir jogos com entusiasmo, ir ao estádio, essa é a minha versão 2018.

Mesmo enquanto escrevo esse texto, o termo “torcedoras” é grafado pelo corretor ortográfico como se não existisse. O II Encontro estadual de Mulheres de Arquibancada de Minas Gerais (foto), realizado no auditório do Mineirão, no último sábado (16/6), reuniu dezenas de mulheres torcedoras, cada uma com sua história. Torcedoras desde o berço, frequentadoras assíduas das arquibancadas, torcedoras organizadas que vão em caravanas e reivindicam seu lugar no dia a dia ao apoiar o time do coração.

Naquele momento, americanas, atleticanas, cruzeirenses e membros de outros clubes, como vascaínas, deixaram a rivalidade para o campo e colocaram a sororidade em jogo. Quem acompanha o movimento feminista já deve achar este termo desgastado, mas não há como melhor traduzir os sentimentos daquele evento além de um forte companheirismo feminino, de quem divide experiências e conhece as dores de existir no futebol.

Na mesa das torcedoras, uma das pautas principais foi a maternidade. Como essas mulheres torcedoras conseguem introduzir as suas filhas naquele ambiente que apreciam tanto, e quais as barreiras para isso? A maioria das participantes começou a frequentar o campo com os homens da sua família, pais, tios e irmãos. Hoje, porém, elas são as responsáveis por levar as filhas.

O estádio possui recortes de classe bem delimitados. Se homens têm a opção de curtir futebol enquanto as esposas cuidam dos filhos, o mesmo muitas vezes não vale para elas. Quantas não são mães solo, as chamadas “mães solteiras”, e únicas responsáveis pelo cuidado da criança. Então, querendo ou não, elas precisam enfrentar o transporte público com o filho a tiracolo, às vezes dois ou três ônibus pois nem o Mineirão nem o Independência são de fácil acesso; se preocupar com os muitos pertences demandados por crianças, como comida, remédios e agasalho; e pagar dois ingressos inteiros ou, caso queira o desconto, ter que fazer a impraticável segunda viagem até a sede do clube para fazer valer seu direito.

Um dos depoimentos foi categórico: se o estádio não é amigável às crianças, também não o é para mães. Assim como não é amigável para mulheres LGBTs, como lésbicas/bissexuais e travestis/transsexuais. Uma dessas mulheres, inclusive, contou que se sente mais segura quando está próxima a torcidas organizadas, relato que quebrou expectativas preconceituosas que criminalizam essas organizações.

Outro ponto de destaque desta primeira parte do encontro foi o depoimento de uma vascaína que foi ameaçada por membros da própria torcida ao postar fotos com torcedoras rivais. Segundo ela, ficou claro que muitos homens não têm maturidade para um evento como o Encontro de Mulheres de Arquibancada, não sabendo separar a rivalidade do esporte da convivência diária.

Neste ano, o futebol feminino também teve seu momento de discussão. Jogadoras do Prointer e América expuseram um pouco da precariedade da modalidade em Belo Horizonte, sobre como elas pagam para jogar ao custear as taxas de aluguel de campo. Mesmo as jogadoras profissionais americanas não tem acesso aos equipamentos do clube e precisam fazer academia por conta própria; no Prointer, só tem uniformes que ganham em campeonatos municipais e as americanas precisam jogar no frio do Rio Grande do Sul sem uniforme de inverno. Bárbara, a Paçoca do Prointer, explicou que o termo “campo” não se aplica à modalidade, pois elas são relegadas aos terrões.

Em determinado momento, foi perguntado à audiência do Encontro quem ali jogava futebol. Poucas tiveram coragem de afirmar, com certeza, que as peladas com as amigas seria, de fato, jogar futebol. Então, uma das organizadoras propôs a seguinte reflexão: homens não têm vergonha de afirmar que jogam futebol, por mais ruins que possam ser no esporte. Às mulheres, porém, não é permitido falhar. Por isso, não temos a mesma confiança de nos apropriar deste momento de lazer, não nos achamos pertencentes.

Por fim, a última parte do evento tratou sobre as mulheres que estão nos bastidores da cobertura midiática do futebol, as jornalistas e assessoras. Todos os depoimentos sinalizaram a sexualização das profissionais de imprensa. A carreira delas é posta em dúvida, insinua-se que elas precisam se relacionar sexualmente com seus chefes ou jogadores para estarem onde estão. Quando aparecem na frente das câmaras, os comentários dos telespectadores homens são voltados à aparência física e as críticas sempre destacam a sua condição de mulher.

Com este breve resumo de mais um encontro entre as mulheres mineiras de arquibancada, campo e imprensa, gostaria de reiterar que estou, sim, empolgada com o meu time e, neste momento, com a Copa do Mundo. Eu me mantive longe por muito tempo por causa de machismo e homofobia, mas futebol é divertido, é culturalmente brasileiro, é agregador. O que eu precisava era apenas de um grupo de mulheres que me fizesse companhia, o que eu encontrei na Grupa (http://grupa.com.br/).

Eu, particularmente, não conheço muito da história do meu clube, da minha seleção, não sei o perfil dos principais jogadores da atualidade. Mas, mais uma vez, o machismo não reflete a realidade: eu sou a exceção entre as mulheres de arquibancada, não a regra. E, ó, ninguém precisa passar em teste algum para gostar de alguma coisa. Acredito que o torcer é leve e despretensioso, não uma tese de doutorado.

Eu passei o evento todo com um sorriso no rosto, porque um monte de mulheres juntas falando sobre suas paixões é das coisas mais bonitas que se tem. A felicidade delas compartilhando ideais é o que de fato constitui o empoderamento, uma rede feminina de apoio. Aquela tarde de sábado me foi tão emocionante quanto assistir à comemoração das argentinas pela descriminalização do aborto (https://goo.gl/mqsh2K).

(Publicado no O Beltrano. Crédito da foto: Araceli Sousa.)

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[19/6/18]

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Um comentário

  1. Olha, texto bem pontual. Ri aqui com o seu corretor marcando torcedoras… É impressionante o quanta caminhada ainda as mulheres têm pela frente.
    Está em nosso interior estes machismos culturais, como você disse: não temos coragem de afirmar que jogamos futebol.
    Ótima matéria.

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