Márcio Pochmann analisa transformações no Brasil entre as greves gerais de 1917 e 2017

A Greve Geral de 1917 tem pontos em comum com a Greve Geral de 2017 e diferenças fundamentais que nos ajudam a entender as transformações históricas ocorridas nesse período de um século. Enquanto a greve de 1917 aconteceu no momento de esgotamento da primeira globalização do capital, a greve atual se dá no contexto de esgotamento da segunda onda de globalização, analisou o economista Márcio Pochman, ao participar do seminário nesta quinta-feira 8/6, na Casa do Jornalista.

O seminário “100 anos da Greve Geral de 1917 e a luta dos trabalhadores na atualidade” foi promovido pelo Núcleo de Estudos sobre o Trabalho Humano (Nesth) da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, com apoio da Associação dos Servidores da Universidade Federal de Minas Gerais (Assufemg), do Sindicato dos Trabalhadores em Entidades Sindicais do Estado de Minas Gerais (Sitesemg) e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais.

Na parte da manhã, houve palestra da historiadora Regina Helena da Silva, da UFMG, com mediação do professor Carlos Roberto Horta e participações do presidente do Sindicato dos Jornalistas, Kerison Lopes. À tarde, além de Pochmann, economista da Unicamp, participaram os sindicalistas Valéria Morato, da CTB e do Sinpro, e Jadir da Silva Perez, do Sitesemg.

Globalização e nacionalização

“A greve geral não é um acontecimento em si, diz respeito a um contexto”, disse Márcio Pochmann. “A Greve Geral de 1917 é contemporânea de grandes conflitos sociais, em especial a Revolução Russa. Ela acontece num contexto em que começa a ficar claro o esgotamento da primeira globalização do capitalismo, que na época era chamada de imperialismo, e que tinha como centro a Inglaterra”, explicou.

Segundo o economista, a primeira e a segunda guerras mundiais demarcam o fim dessa primeira onda de globalização, com o fim dos impérios, principalmente do império britânico, na qual a relação da metrópole com as colônias impossibilitava a existência de políticas nacionais.

A partir da Primeira Guerra Mundial e principalmente da Segunda Guerra Mundial, há um processo de descolonização, por pressão das políticas nacionais. Até 1945 o mundo só tinha 50 nações, hoje tem mais de 200. Na Segunda Guerra Mundial há uma disputa para definir quem vai suceder a Inglaterra, se a Alemanha ou os Estados Unidos, e os EUA saem vencedores.

No final do século XIX aconteceu a segunda revolução tecnológica, com a emergência de novos materiais e fontes de energia, como o petróleo. Há uma reorganização do sistema produtivo, com a transição da classe trabalhadora de ofícios para trabalhadores de empresas, e dos sindicatos de ofício para sindicatos gerais.

Com a crise de 2008 começa uma reversão da segunda onda de globalização que começou nos anos 70 do século XX. O período que vai das guerras mundiais aos anos 80 é o período do nacionalismo. Ele termina com três derrotas dos EUA: o fim da conversão do dólar em ouro, a derrota na Guerra do Vietnã e a crise do petróleo no Oriente Médio.

A reação é a nova globalização, desta vez conduzida não por impérios, mas por corporações multinacionais. Só 11 países têm orçamentos maiores dos que as grandes corporações. As multinacionais passam a interferir nas nações, pois não querem pagar salários altos, não querem pagar impostos, não aceitam as regras de proteção do ambiente (exemplo marcante disso é o desastre da Samarco / Vale, em Mariana) e introduzem o elemento da corrupção como parte do economia.

Este modelo esgota-se com a crise de 2008, quando tem início a um movimento de desglobalização. O comércio mundial regride em relação ao PIB, as taxas de juros passam a ser negativas (não Brasil). Há uma nova disputa sobre quem vai comandar o futuro do mundo, se os EUA, oferecendo segurança militar e segurança monetária, mas não crescimento e inclusão, ou a China, com a globalização inclusiva. A “rota da seda” está investindo 26 trilhões de dólares até 2030 em 65 nações que representam dois terços da humanidade. O Brasil, que vinha fazendo parte dessa rota, está sendo alijado, a partir do golpe.

Ofensiva e defensiva

A Greve Geral de 1917 acontece num projeto de ofensiva dos trabalhadores, de inclusão dos trabalhadores no Estado, nas políticas públicas, liderada por sindicatos de ofício. Não foi liderada por brasileiros nativos, mas por imigrantes. É uma elite operária que conduz a greve.

A transição da monarquia para a república foi feita pela elites com exclusão social. Elas consideravam que as razões do atraso do Brasil estavam ligadas à miscigenação e que a saída seria o branqueamento, com a exclusão dos negros. Efetivamente, o branqueamento acontece: em 1872, dois terços da população brasileira eram de não brancos; em 1940, dois terços são brancos. Esse branqueamento passou pela atração de trabalhadores imigrantes que foram protagonistas na Greve Geral de 1917. E a greve foi um projeto ofensivo dos trabalhadores para entrar nas políticas públicas.

Em 2017 é diferente. A greve, hoje, é defensiva, não é para incluir, mas para evitar a exclusão. O governo atual quer fazer o Brasil retroceder ao período pré-1930. O novo sindicalismo brasileiro queria mais, achava que a CLT era muito pouco, mas, apesar da Constituição de 1988 e de tentativas em sucessivos governos, pouco que avançou em relação à CLT. A reforma trabalhista visa a acabar com os sindicatos e a Greve Geral de 2017 é um projeto defensivo, da defesa do que se tem.

A greve de 1917 foi liderada por uma parte dos trabalhadores que estava reduzindo, os operários de oficio, e por uma classe minoritária, num país amplamente agrário. A greve de 2017 também. Os trabalhadores da indústria hoje são 8% do total de trabalhadores do país, que passa por uma desindustrialização avassaladora.

A classe trabalhadora no Brasil vai mudar a partir de 1930, com a mudança da sociedade agrária para a sociedade industrial. Em 1940, ainda, só um em dez trabalhadores, estava nas cidades. Agora acontece uma nova transição, para uma sociedade de serviços. A parcela industrial, minoritária, organizada, não consegue se conectar com o restante dos trabalhadores. Hoje quase 70% dos trabalhadores estão no setor de serviços – são os “trabalhadores de shopping center”, que participam muito pouco de mobilizações e greves.

Sindicatos em 1917 e 2017

Os sindicatos de ofícios que existiam em 1917 eram completamente diferentes dos sindicatos de hoje. Orientados pelo anarcossindicalismo, eles consideravam que o lucro é um roubo e seu objetivo era a superação do patronato, ocupando as fábricas e implantando a cogestão, não era negociar com os patrões. Eram praticamente partidos políticos, contrários a eleições; eram instituições culturais, que faziam saraus e outras atividades; instituições educacionais, que formavam os trabalhadores nos ofícios; e tinham fundos de ajuda mútua para proteger os trabalhadores e garantir seu funcionamento. Mas respondiam só a uma parcela pequena dos trabalhadores, a aristocracia da classe trabalhadora.

O novo sindicalismo representa todos os trabalhadores para negociar com os patrões e fazer convenções coletivas de trabalho. Sua intenção é que a empresa tenha o maior lucro possível, porque quanto mais ela ganhar, melhor será negociar. O objetivo é aumentar os custos do trabalho, com aumento dos salários e outros ganhos. Ele só cuida da parte econômica do trabalhador, a parte política cabe ao partido; a parte social (formação, previdência etc.) cabe ao Estado. Os sindicatos dão origem a partidos trabalhistas. Leis generalizam as conquistas das fábricas, assim se entende a criação, por exemplo, do salário mínimo.

Hoje estes sindicatos estão ultrapassados, no mundo inteiro perdem filiados. Mesmo na Alemanha, que só tem seis sindicatos, a sindicalização está caindo.

Pesquisa da Fundação Perseu Abramo mostrou que a nova classe trabalhadora de serviços não está em grandes empresas, mas em pequenas empresas, que não tem hierarquia muito clara como na indústria. Ela não identifica a luta de classes com marcante, mas identifica um conflito entre sociedade e Estado – pensa que o Estado serve aos ricos. Essa classe votou em Trump, em Le Pen e em Dória. Ela também não acredita nos sindicatos – em dez novos empregados, só dois se sindicalizam.

Quem tem ascensão sobre esses trabalhadores sãos as igrejas neopentecostais, não por razão religiosa, mas porque operam aproximando-se deles, nas periferias, acolhendo-os, oferecendo serviços, como busca coletiva de trabalho, formação e qualificação, e socializando-os, ouvindo-os. “A identidade desses trabalhadores com as igrejas não é ideológica, é funcional”, resume Márcio Pochmann.

(Na foto, Porchmann, Morato e Horta.)

[8/6/17]

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