Sindicato e Comissão da Verdade fazem emocionante homenagem a Betinho, Henfil e Chico Mário

Em encontro realizado na noite desta segunda-feira 30/11, a Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg) e o Sindicato dos Jornalistas homenagearam os irmãos Betinho, Henfil e Chico Mário por sua dedicação à luta em defesa dos direitos humanos e da democracia. A cerimônia fez parte das comemorações dos 70 anos do Sindicato e 50 anos da Casa do Jornalista e incluiu a entrega oficial à Covemg do relatório das atividades da Comissão da Verdade dos Jornalistas Mineiros. As duas instituições assinaram Termo de Cooperação para continuidade dos seus trabalhos.

Estiveram presentes à solenidade familiares e amigos de Betinho, Henfil e Chico Mário, entre eles a irmã Filomena (Filó); Ivan Cosenza de Souza, filho do Henfil, e Marcos Pereira de Figueiredo Souza, filho do Chico Mário. Também fizeram parte da mesa da homenagem a psicóloga Emely Vieira Salazar, o filósofo José de Anchieta Corrêa e a psicanalista Maria Auxiliadora Arantes (Dodora). Ivan organizou uma mostra de trabalhos do pai, que ficará na Casa do Jornalista em dezembro. Marcos executou no teclado composições do seu pai.

A homenagem foi uma iniciativa da Covemg que o Sindicato prontamente acolheu. O sociólogo Herbert José de Souza, o Betinho, teria completado 80 anos no dia 3 de novembro. Ele faleceu em 1997, em decorrência da aids, contraída em transfusão de sangue, assim como seus irmãos – o cartunista Henfil (Henrique de Souza Filho) e o músico Chico Mário (Francisco Mário de Souza). Militante da Ação Católica, depois Ação Popular (AP), Betinho foi obrigado a se exilar, após o golpe de 1964, e viveu na clandestinidade até a decretação da Anistia, em 1979. Nos anos seguintes criou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, que está na origem de programas sociais atuais.

Celebrando a vida

“Conheci Henfil quando ele era ainda o Henriquinho, o neto do vovô Rodrigo, em Bocaiúva”, contou a coordenadora da Covemg, Maria Ceres Pimenta Spínola Castro, na primeira de inúmeras referências à família Cosenza Souza e sua dedicação às causas sociais. “Hoje estamos aqui celebrando a vida e a luta dessas pessoas”, disse. “O trabalho da Comissão da Verdade é reconstruir a história, recuperar a memória e conquistar a justiça. Quando a gente não esquece, não deixa que aconteça de novo.”

Professora aposentada do curso de Comunicação Social da UFMG, Ceres disse haver um significado muito grande no fato de aquele reencontro de “pessoas que vivenciaram, lutaram e batalharam, que vivenciam, lutam e batalham” pela democracia estivesse se realizando na Casa do Jornalista. Sem recorrer a um discurso escrito, no que foi seguida por todos que a sucederam, Ceres disse que falaria “de cor, com o coração”, conforme lição aprendida com o ex-prefeito Célio de Castro.

O secretário estadual de Direitos Humanos Participação Social e Cidadania, Nilmário Miranda, contou que esteve recentemente visitando a aldeia indígena Krenak, constatando a devastação provocada pelo desastre de Mariana, e teve oportunidade de conhecer as ruínas do presídio indígena em Resplendor. Ele informou que o presídio funcionou durante a ditadura e para ele eram levados os indígenas perseguidos pelo governo, até que a enchente de 1979, derrubou a construção.

“Quantas pessoas sabem disso? Quanto sabem que os índios eram considerados inferiores pela ditadura e levados para a prisão, sem julgamento?”, perguntou Nilmário. “A gente conhece os fatos mais notórios”, disse, citando uma fotografia famosa na qual indígenas aparecem presos em pau-de-arara num desfile militar na Avenida Afonso Pena. “Trata-se disso, a Comissão da Verdade tem essa função. Conhecer o passado é um direito”, ressaltou. “Betinho tem tudo a ver com isso, ele sempre defendeu a transparência e a transparência é fundamental para se pensar um novo projeto para o país.”

Família de todos

O presidente Kerison Lopes lembrou a tradição da Casa do Jornalista, que sempre participou das lutas em defesa da democracia. “Precisamos realizar centenas de eventos como este para que tempos sombrios como a ditadura não se repitam”, disse. Ele citou o encontro de jovens que acontecia simultaneamente na Casa como exemplo da permanente acolhimento dos movimentos sociais pelo Sindicato. Estes jovens se preparavam para participar do Emergências, um grande projeto do Ministério da Cultura que em dezembro reunirá no Rio de Janeiro representantes de diversos países para debater os desafios sociais e políticos do século XXI.

“A família do Betinho, do Henfil e do Chico Mário é muito maior”, disse Kerison. “Todos aqueles que defendem a democracia e os direitos humanos se sentem parte dela”, acrescentou, citando sua admiração por Gilse Cosenza, cunhada de Henfil e militante do PCdoB, a quem conheceu quando chegou a Belo Horizonte. Ao assinar o Termo do Cooperação, depois da entrega do relatório da Comissão da Verdade dos Jornalistas Mineiros, realizado na gestão anterior, ele disse que o trabalho prosseguirá. “Daqui para frente vamos trabalhar juntos”, afirmou. O jornalista e professor Dalmir Francisco, coordenador da Comissão, informou que o trabalho foi um “garimpo” feito durante três meses e que precisa ser aprofundado. “Ainda há muito a ser feito”, disse.

O secretário de estado da Cultura, Angelo Oswaldo, ressaltou também o encontro de jovens que se realizava naquele momento. “O Sindicato tornou-se um fórum de cultura”, disse. E acrescentou: “Somos todos família Souza”. Em seguida foi exibido um vídeo produzido pela Rede Minas para evento, contendo informações e imagens dos homenageados, ao som da música “Ressurreição”, de Chico Mário.

Saudade do Betinho

“Betinho sempre foi muito alegre, desde os tempos da Juventude Estudantil Católica”, contou a psicóloga Emely, que conviveu longamente com o sociólogo. Ela disse sentir muita saudade dele e lembrou algumas histórias, entre elas uma apresentação num programa da Rádio Itatiaia, na qual ela cantou e Betinho tocou violão. “Não vamos deixar cair a bandeira dos direitos humanos que o Betinho sempre carregou”, conclamou.

Filomena Souza, a Filó, fez questão de frisar que não tem apenas três irmãos, mas também quatro irmãs. “Somos oito irmãos, três homens e cinco mulheres, todas muito boas”, disse, citando a incansável atividade social da sua irmã Glorinha. Filó lembrou que ela própria é repórter fotográfica e que outra irmã, Wanda, jornalista, publicou um livro de memória da família, “Balaio Mineiro”. “Nossa família sempre teve um pé no jornalismo”, disse. “Está homenagem aqui é muito simbólica”, acrescentou. “Nossa família é planetária, somos todos irmãos.”

“Henfil tinha os dois pés no jornalismo”, disse Ivan, filho do cartunista. Ele contou que, na carteira de trabalho, o pai sempre foi jornalista, pois a profissão de cartunista não era reconhecida; ele foi inclusive diretor do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Ivan lembrou que foi Henfil o criador do bordão “Diretas já!” e citou uma premiação dada pelo ONU, post mortem e recebida por ele, como o maior reconhecimento ao trabalho do artista. “Estou muito contente de fazer fazer esta exposição aqui.”

Exílio e clandestinidade

Dodora relatou seu convívio com Betinho no exílio, no Uruguai, durante dois anos. “Como militantes da AP fomos obrigados a sair do país e sumariamente perseguidos”, disse. Do grupo fazia parte também seu ex-marido Aldo Arantes, ex-presidente da UNE, e a mulher de Betinho, Irles. “Ninguém pensava que a ditadura ia durar tanto tempo.” De volta ao Brasil, passaram dez anos na clandestinidade, condição que transformou suas vidas no oposto da vida de um cidadão comum, conforem depoimento dado por Betinho, do qual ela leu um trecho.

O filósofo Anchieta, professor aposentado da UFMG, narrou sua amizade com Betinho na juventude e sua surpresa, quando decidiu abandonar a militância política para fazer um doutorado na Bélgica. Betinho tentava envolvê-lo na luta política, mas ao saber da decisão do amigo, apoiou-o imediatamente. Referindo-se à Covemg, disse que no caminho veio pensando nesse conceito “verdade” e no que ele significa hoje. “Betinho aprendeu no corpo que a verdade dele era tarefa. Suas limitações jamais definiram sua história”, disse, referindo-se à hemofilia.

Ao final do encontro, Marcos Souza tocou composições do pai, um precursor do disco independente; e encerrou tocando a canção “O bêbado e a equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, celebrizada na resistência à ditadura, como uma espécie de hino da Anistia, por conter entre seus versos uma referência aos “irmãos de sangue”: “Meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu num rabo-de-foguete…”

 

Na fotografia acima, Filó, irmã de Betinho, Henfil e Chico Mário, presenteia o presidente Kerison Lopes com o livro “Balaio Mineiro”, escrito pela jornalista Wanda Figueiredo, também sua irmã. (Crédito da foto: Celso Travassos.)

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